Começou como divertimento: em tudo vias segundos sentidos e piadas ordinárias. Habituaste-te a sexualizar qualquer coisa. Por fora, com aparência de entendido, de experiente; por dentro, com o medo de quem nega um vício.

Era óbvio que dar a tudo uma conotação sensual iria deixar estragos. E percebes, com dor, que esse hábito estragou as tuas relações, as tuas amizades, a tua família. Não consegues aproximar-te de alguém com liberdade, não consegues entender a vida como dom. Transformas o mais pequeno afeto em desejo de posse.

Mas todos fogem de um ladrão.

Volta atrás, sê mais prudente, sê mais duro contigo mesmo, com o teu corpo, com o teu coração. Tens de provar a dor para reaprender a amar.

Vens cheio de força, trazes novidade. Questionas o que sempre se fez, fazes perguntas incómodas. Queres mudar, desinstalar, fazer diferente.

Mas chegaste tão lançado e orgulhoso que não és capaz ouvir ninguém. Vens fundar algo novo quando só te pediram para ajudares no que existe há muito tempo.

Há um passado, há aspirações, há uma ideia que juntou muita gente com um propósito comum. Há uma experiência de que és herdeiro. Há coisas permanentes.

O que é bom não tem de ser novo. Nunca esqueças os mais velhos, nem o que deves à tradição.

Sofreste. As provas passadas deixaram no teu interior uma marca profunda que não consegues esquecer.

Queres, com todo o direito, que se cumpra a justiça, que a conta seja saldada. Mas, ainda que o seja, não se vai do coração o desejo de mudar o passado. Como se fosse possível voltar atrás e decidir que não acontecia o que aconteceu.

Procura falar, partilhar esse peso: é um alívio ser compreendido.

E, quando te sentires capaz, experimenta o caminho do perdão. Não é fácil, não apaga todas as marcas, mas é o único onde podes, verdadeiramente, sarar as tuas feridas.

Tens um smartphone baratinho, comprado em segunda mão, que até nem funciona muito bem. Mas nem por isso vives desprendido.

É que passas muito tempo agarrado ao ecrã, a encontrar respostas rápido, a satisfazer curiosidades, a cumprir desejos. Estás a habituar-te a poder satisfazer, em segundos, as tuas necessidades.

Por isso te controlas menos, compras por impulso, crias necessidades sem razão. Não são gastos escandalosos, são pequenos caprichos que te fazem descansar no conforto material.

Cuidado. O jovem rico tinha boa intenção, mas não foi capaz de entregar-se. Ter tudo não te dá nada.

É o primeiro que respondes a um convite. Tem de ir o teu grupo ou o grupo onde fica bem estar.

Está certo que tenhas gosto em sentir-te acolhido. Mas lembra-te que às vezes é bom ires apenas porque te faz bem. Ou porque fazes bem a outros. Ou precisamente porque não vai mais ninguém e alguém tem de levar as coisas para a frente.

Não tens que depender do grupinho. Faz outro, faz vários. Em vez de ser arrastado, arrasta.

Queres preparar o teu futuro e aproveitas todas as oportunidades para te formares. Entre cursos, vídeos, coaching e livros, percebeste que as ferramentas necessárias para ter sucesso são demasiadas. Mas queres todas!

Ter sentido prático e vida intelectual, ter sentido crítico e receber feedback, comunicar bem e saber escutar, ser ambicioso e austero, saber de programação e falar várias línguas, cuidar a imagem e estar atento a todos, planear e ser desenrascado, ser autónomo e pedir ajuda...

Não dá. Estás a desprezar coisas importantes tentando apanhar um comboio que vai mais rápido do que tu. Escolhe alguma coisa e vai mais devagar. Não faz mal ser imperfeito.

Às vezes parece que Deus pede mais a ti do que a outros.

Que sorte! Os pedidos de Deus não são castigos, são declarações de amor.

Se parece que a ti te pede mais... dá mais.

Que te dê um centro e te faça sair de ti mesmo. Que te ajude a sentir realizado. Que te dignifique e dê sentido a tudo o que fazes. Que te entusiasme. Que te motive para lutar e te dê alento nas derrotas. Que seja uma escolha livre e não imposta. Que sirva para tudo e para sempre. Que preencha a tua vida. Que seja acessível também na debilidade. Que te faça melhor a ti e aos que estão à tua volta. Que valha a pena viver e morrer por ele.

Tudo mudava se tivesses um ideal.

Ser santo?

És franco e sincero. Tens sentido prático e descomplicas. És inconformista e destemido. Trabalhas bem e apresentas resultados. Isso é bom.

És seco e antipático. Falas com orgulho e achas-te superior. Não ouves, não te adaptas. Tens sempre razão. Isso estraga tudo o resto.

Tens talentos para servir. Não queiras ser servido.

Já viste que não tens vocação ao celibato, nem à vida religiosa, nem ao sacerdócio. Também não te vês a trabalhar em projetos da Igreja, nem sequer em atividades de cariz católico. Até tens a vida resolvida, pessoal, afetiva e profissionalmente.

E ficaste com a ideia de que não podias ou não devias entregar a vida a Deus. Que não te era pedido tanto.

Mas Deus continua a querer a tua vida inteira, toda a tua capacidade, todo o teu coração. Aí onde estás podes entregar-te, fazer tudo por Cristo e com Ele, trabalhar para o Seu reino, transformar em oração tudo aquilo em que tocas, ver os outros com os olhos de Jesus.

Deus quer tudo de todos.

De uma análise detalhada ao pontificado do Papa Leão XIV nestes pouco mais de 8 meses, concluímos que podemos estar mais unidos ao Papa, rezar mais por ele, ler com mais frequência o que nos diz, tentar pôr em prática o que nos aconselha e dar prioridade ao que o Santo Padre considera prioritário.

Um bocadinho mais de oito meses é um marco tão bom como outro qualquer para renovar o sentido de filiação ao Vigário de Cristo!

Por onde vais começar?

É o que te preocupa quando falas, quando chegas a algum sítio, quando conheces alguém, quando tens responsabilidades.

Não desfrutas do convívio porque tens na cabeça o juízo dos outros. Detestas surpresas porque não sabes como vais reagir. Medes as palavras pelo impacto que vais causar. Não ajudas porque podem não aceitar-te.

Estás a pôr a tua imagem à frente do bem que podes fazer. E, provavelmente, a julgar demasiado.

Larga esse vício. Sabes bem que não tens muitos motivos para que te admirem. E que Jesus não precisa deles para te amar muito mais do que tu a ti próprio.

Tens imensos talentos, boas ideias, iniciativa. Entusiasmas-te com facilidade e lanças novos projetos.

Sem continuidade.

Quando chega a parte chata, as tarefas repetidas, a necessidade de insistir, a formação dos que te substituirão, perdes a paciência e ocupas-te em novidades.

Já fazes um grande bem. Imagina se fosses constante.

Deixa os bons projetos ganhar peso e profundidade, não te prendas nos frutos imediatos, dá tempo ao que pode amadurecer. Faz menos. Bem feito.

Tens muitas ideias sobre a Igreja, muitos planos e soluções, muitas certezas, muitas opiniões.

Mas ouço-te falar de vendas, de sociologia, de psicologia, de política, de posicionamento, de estratégia, de história, de comunicação, de moda... e nunca de Jesus.

Não deixes de falar de nada, mas não o sobreponhas ao essencial. Ainda que sejamos peritos em muitas coisas, se não damos Jesus Cristo, estamos a perder o tempo.

Jesus, não sei fazer mais, não posso estar mais perto, não tenho mais ideias.

Digo que o deixo nas Tuas mãos para tentar tranquilizar-me. Mas continuo inquieto.

Repeti-lo-ei. E acrescento às tuas mãos a própria inquietação.

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