Tema: Amizade

Tens um grande desejo de estar onde estão todos. E lá vais!

Mas passas o tempo em tensão, com a sensação contínua de que te estão a observar, a avaliar, a medir. Tens medo de não estar à altura, de não encaixar. Encenas gestos e atitudes de quem está à vontade, desesperas por momentos se ficas só.

Complicas-te porque tens medo que te façam o que fazes tu aos outros: julgas, comparas, competes. Para quê?

Procura amizades pessoais e profundas. Procura oportunidades de servir os outros. E já não terás tempo para andar obcecado por ti.

É difícil falar de Jesus. Não querem saber, preferem rir-se. Às vezes nem tens uma base comum de conversa porque as ideias cristãs são desconhecidas. Parece que falas outra língua.

Mas podes ser amigo de todos, também de quem tem opiniões diferentes, se procuras amar com o coração de Cristo.

Essa amizade é eloquente e mostra, antes das palavras, a novidade que queres apresentar a todos.

Ninguém é indiferente ao amor de Deus: se o queres explicar, mostra-o.

Que diferença para a mera vida social em que nos teus amigos te amas a ti próprio. As boas amizades aproximam-te de Cristo porque O vês nos teus amigos, porque O imitas ao ser amigo.

Não o és verdadeiramente se afastas os outros de Deus, ou se os deixas ir, sem fazeres nada, para longe da fonte de toda a alegria.

Pensa num dos teus muitos amigos. Rezaste por ele hoje? Alguma vez tiveram uma conversa séria? Qual foi a última vez que estiveste só com ele? És sincero? Sabes ouvir se te chama a atenção? Sofres quando ele sofre? Cuidas dessa amizade ou esqueces-te?

O que podes fazer para imitar o que Jesus, o melhor amigo, faz contigo?

Tens um coração grande, muito dado, que pede muita atenção. Procuras ligar-te e facilmente te prendes aos outros.

Mas começas a perceber que uma grande amizade é diferente de uma amizade muito intensa, que pode transformar-se numa amizade exagerada.

Porque seca as outras amizades, ou porque te faz descuidar as obrigações, ou porque invade o terreno do teu compromisso, ou porque te afasta de Deus, ou porque simplesmente te tira tempo a mais.

Tranquilo. Com um bocadinho de ausência reequlibras o coração. A separação é difícil mas necessária para provar que essa amizade é sólida.

A de ontem foi igual à de hoje. Podia ser a tua oração como a de outro qualquer.

É que não é pessoal. Não falas com Deus de ti, do que te preocupa, do que devias mudar. Do que te tira a paz, do que não queres largar.

Por isso te custa tanto. Às vezes ainda consegues puxar por um sentimento forte, mas também não é teu, é do grupo. E não chegas a ver os frutos da oração na tua vida.

Jesus quer ter amizade contigo. Para isso tens de ser transparente, abrir a alma, mostrar fragilidades, expor feridas, reconhecer culpa. Verás a diferença quando a conversa for sincera.

É bom estar contigo. Tens jeito para fazer as perguntas certas e mostras verdadeiro interesse.

Mas perguntas o mesmo uma e outra vez, como se fosse a primeira. É que não ouves. Já não te lembras que o perguntaste, não fazes ideia da resposta.

E aquele bom sentimento de amizade estraga-se com a dúvida do desinteresse.

Não deixes de perguntar, mas interessa-te mesmo. Ouve, detém a atenção, pensa no que te dizem, guarda no coração. A amizade é uma virtude, não é um só uma competência.

Eu percebo. É bom trazer sangue novo, abanar os que estão encostados e desiludidos há muito tempo, contrariar o "sempre se fez assim".

Mas não és a última bolacha do pacote!

Tenta melhorar o que se pode melhorar, sem desvalorizar a opinião e trabalho de quem veio antes de ti. Ouve, respeita processos, reza.

E não desprezes a eficácia de conseguir trabalhar com unidade.

Eles esperam porque tens de acabar qualquer coisa, eles mudam planos porque te dá mais jeito, eles complicam a vida porque tu te atrasas.

Iam ser 20 minutos mas decidiste que seria uma hora, estão com pressa mas tu não reparas, têm muito que fazer e tu não ligas.

Que mudem as agendas para se adaptar à tua. Como se dispusesses do tempo dos outros, porque o teu é mais importante.

Antes que fiques definitivamente só, começa a dar valor ao que os outros fazem.

Como te fazem falta para não ficares fechado no teu mundo. E para poderes pôr em palavras o que antes só intuías.

Mas trocaste conversas e leituras por copos e youtube! Têm o seu lugar, mas és capaz de mais: mais profundidade, mais proximidade, mais atenção.

É que é diferente ser amigo e estar interessado, de ser porreiro e interessante. Podes ser o segundo. Mas deixas tanto bem por fazer se não és o primeiro...

É quando mais te custa a fidelidade a Deus. Dizes a verdade e chamam-te traidor. Ou deves faltar a um plano e pensam que o fazes por desprezo. Ou pões Deus em primeiro e respondem-te com ciúmes. Ou proíbes para proteger e acham-te ditador.

Apoia-te na Cruz para viver serena e firmemente esses tempos. Ceder agora seria um alívio. Mas não seria bom, nem verdadeiro, nem caminho de felicidade.

E que os outros se possam apoiar na tua caridade e alegria para perceberem, com tempo, que afinal estavas certo.

Tens um bom grupo de amigos que partilha contigo a mesma fé.

Mas notas, ultimamente, que andam todos meio frouxos, pelos mínimos. Não sentes o interesse, que tanto te ajudava, na vida de oração, no apostolado, em crescer, lado a lado, na amizade com Cristo. E precisas.

Ou encontras o ambiente que puxa por ti –sem abandonar esse–, ou puxas tu pelo teu grupo. Essa indiferença arrastada vai-te afastando de Jesus. E és tão disponível para os planos vazios...

Marca posição. Não te deixes levar. Leva-os.

Que fácil dizer mal dos outros! Não com rancor, mas com sentido de justiça, exigindo.

Podiam ser mais atenciosos, mais delicados, mais comprometidos, mais esforçados. Deviam ser. E vivemos socialmente dececionados.

No meio de tanto lamento, esquecemo-nos de nós, do nosso carácter! Quantas vezes não fomos descuidados, bruscos, levianos, preguiçosos? Nem sabemos. E que falta faz recordar!

Olha para ti, examina a tua vida e pede perdão a Deus por essas faltas de amor. Depois exige-te, tira propósitos. "Sê o que queres que os outros sejam e verás que já o são."

Mudaram algumas circunstâncias da tua vida. E sem aviso prévio, foste desaparecendo. Não respondes, quando respondes és vago. Não apareces, nunca podes.

Deste lado ficou, primeiro, a ideia de que estavas chateado. Mas percebemos agora que estás com vergonha.

Talvez penses que não aprovamos o que mudou na tua vida. Ou que te vamos apontar o dedo, ou pedir contas. Ou até que já não estás à nossa altura.

Desculpa se foi a ideia que passámos.

E responde. Tem de ser possível conversar, faz falta a proximidade dos amigos. Não chutes a porta que deixamos aberta para voltares.

Crescemos à mesa.

Ali aprendemos a viver rodeados, a partilhar, repartindo o que nos é necessário. Aprendemos a generosidade deixando o bife maior, a temperança esperando pelos outros, a escuta quando todos querem falar, o serviço passando e pedindo a água, os modos falando ou comendo. Aprendemos a agradecer rezando com simplicidade, aprendemos a pobreza comendo o que nos dão.

Tão diferente das refeições solitárias, à porta do frigorífico, comendo por capricho o que um influencer aconselhou. Tão diferente dos jantares vidrados na televisão ou no que diz o telefone de cada um.

Hoje, quando os apelos à solidariedade facilmente se tornam vazios, devíamos recordar mais vezes o grito da mãe na nossa infância: para a mesa!

Que estou aqui por minha conta, que sei tudo, que tenho muita força, que não preciso de ninguém.

Ou que é melhor não incomodar, que ninguém se importa, que ninguém quer ajudar.

E, mesmo que desse, por que razão quereria fazer tudo sozinho? Para ficar com o mérito só para mim? Para me destacar dos outros? Para ganhar a corrida?

Qual corrida? A que importa, corre-se em equipa.

Posts mais antigos