Incomodam mas não são graves nem te vão matar. Até podias viver sem reparar nelas se descansasses no que te disse o médico. Mas voltas-te sobre ti próprio.

Procuras na net as consequências mais graves e improváveis, e explicas a toda a gente (heroicamente, sem te queixares) como a coisa é séria. Ou pões um ar sofredor para que te perguntem.

Os outros unem-se piedosamente à tua dor e assim tens carta branca para fazer o que te apetece. Não te vão pedir muito, vão compreender tudo.

Mesmo com razões para te queixares, viverás melhor esse tempo de prova sendo discreto, falando da doença com aqueles que estão perto, sem te obcecares com a saúde.

Se, por agora, não se justifica que tenham pena de ti, não a procures. Estás a alimentar o egoísmo: uma doença mais grave.

Às vezes não está mais ninguém. Tu e umas poucas velhinhas piedosas, muito contentes por te ver na igreja.

Ao princípio, sentias-te deslocado. Mas aprendeste a olhar com carinho para esse exército devoto que acompanha o Senhor com a sua presença, as orações murmuradas, o olhar curioso.

Têm grande esperança em ti! Vêem-te entregue a Deus, se não longe do mundo, pelo menos no lugar delas dentro de uns anos.

Pede-lhes orações. O teu cristianismo sofisticado tem muito a aprender da simplicidade.

Por isso, é natural que procures, em cada tempo, como transmitir com clareza essa mensagem de salvação. Para dar luz ao mundo, não para manter a Igreja.

Se o risco de pregar Cristo com fidelidade é perder relevância no mundo, perca-se. Pregar outra coisa não serve para nada, ainda que se encham os templos.

Uma Igreja pequena e fiel é a Igreja. Uma igreja da moda que se desliga de Jesus, não é a Igreja.

Mas valerá a pena ser criticado, gozado, perseguido por pregar o que o mundo não entende? Pergunta aos mártires.

És pó e ao pó voltarás (Gn 3, 19). Se hoje fores à Missa, talvez ouças esta frase que Deus dirigiu ao homem depois de ele ter pecado. É dura.

Deus criou-nos para a eternidade. Somos imagem e semelhança do Criador, chamados a uma imensa dignidade se aceitarmos viver no seu amor.

Quando, pelo pecado, O expulsamos da nossa alma e Lhe viramos as costas; quando achamos que somos capazes de algo sem Deus e que valemos por nós mesmos, recusamos essa dignidade.

Mas Deus pode fazer reviver o pó e formar, do frágil barro de que és feito, a maravilhosa fisionomia de um filho de Deus. Se quiseres.

Boa quaresma.

Como agradecias que alguém pusesse ordem na tua agenda. Que te dissesse que estás a fazer o que importa e que o estás a fazer bem.

Que olhasse para a confusão de todas as solicitações urgentes, de tudo o que tens medo de falhar, de todos os campos em que és avaliado, para te dar o conselho certo, definitivo. Que convertesse o teu stress em serenidade.

Em vez disso, deixa-me dizer-te que o que fazes não importa. Pelo menos enquanto ocupar o lugar de Deus. Com Ele serás capaz de pôr tudo no sítio certo.

*Espreita o programa do próximo instagram.com/faithsnightout em Lisboa, no dia 28 de fevereiro. Ainda te podes inscrever. E porque uma só coisa é necessária, o Queima-te fará uma pausa para uns dias retiro. Não vamos publicar até ao início da Quaresma.

Nem sempre prestas atenção às leituras da Missa. Às vezes contas só com a homilia que as explica. Outras vezes, não consegues acompanhar uma linguagem que não te é familiar.

Outras ainda porque não lhes dás importância, como se fossem uma parte menor da liturgia.

Na Missa recebes Jesus. O mesmo sobre o altar, no Pão, e sobre o ambão, na Palavra. É o Verbo de Deus, que podes comungar com todos os sentidos. Também escutando.

Com tempo e com esforço, deixa-te alcançar pelo que Deus te quer dizer. Ouve –recebe– as leituras da Missa como um alimento preparado para ti, que te fortalece e dá vida.

Tens centenas de amigos nas várias redes sociais, tens uma família divertida e extrovertida, tens facilidade em conhecer gente e causar boa impressão, sabes falar em público. Mas não conversas.

Já não sabes o que é uma conversa a dois, simples, sincera e confiada. Aquele espaço seguro onde dizes tudo e tudo ouves. Foges. Preferes a mediação do telemóvel, a segurança da piada, o refúgio do grupo.

Por isso sabes que o teu sucesso social tem uma base muito pouco sólida, pouco profunda. Estás cheio de amigos em quem não confias.

Não há amigos que não conversam. Mas a conversa, quando é sincera, implica mostrar-se vulnerável diante do outro e escutar dele a sua vulnerabilidade. E os dois, assim frágeis, são mais fortes. Vamos conversar?

A tua relação com Deus vive de fenómenos extremos. Umas palavras de fogo que te comovem profundamente. Um pecado grande que te recorda como precisas de Jesus. Dias de fervor em missão que te devolvem o entusiasmo.

E já sabes que esses propósitos cheios de adrenalina duram pouco.

Aproveita o bem esses momentos especiais. Mas sem deixar de procurar Deus na rotina, nas atividades chatas, nas pessoas de sempre, nos sítios do costume, nos caminhos, no trabalho, no quarto, na cozinha. Na vida.

Pede a Jesus humildade para seres capaz de O preferir quando ninguém nota.

Não consegues perceber como é possível que Deus não pense como tu pensas. E fazes as birras de quem está convencido que tem razão. Não tens.

A maioria das vezes serás capaz de o compreender mas há momentos em que não vês nada, nenhuma luz, nenhuma lógica.

Parece-te que Deus devia amar e odiar o que tu amas e odeias, que devia permitir ou proibir o que tu permites ou proíbes, que devia chamar bom ao que para ti é evidentemente bom.

Quando não é assim, tu estás errado e Deus está certo. Sempre. Sem exceções. Não é uma maravilha ter esta segurança?

Adoras o mistério. Dizer coisas vagas, dar a entender qualquer coisa, passar informação gota a gota para que fiquem com mais sede.

Às vezes é porque sabes muito mas queres que se prendam a ti. Outras vezes é porque não sabes mais nada mas tens vergonha de o admitir. Outras ainda é porque não podes dizer o que sabes mas queres que todos saibam que sabes.

Foi o estilo que escolheste, achas engraçado. Às vezes é. Mas, ao fim de algum tempo, cansa e és só o gabarolas que está sempre a inventar. Só te liga quem não te conhece.

Se quiseres ser sincero, sê humilde e discreto.

Por que é que a possibilidade de te entregares a Deus pelo caminho do celibato é tão remota para ti?

Talvez temas pela tua imagem e aches demasiado exigente aparecer diante dos outros tão diferente. Talvez temas a entrega e aches que um coração indiviso vive na solidão. Talvez temas pelo teu próprio valor e não te vejas capaz de perseverar numa escolha tão radical.

Seja ou não o teu caminho, é preciso resgatar para a normalidade a enorme beleza destas vidas totalmente entregues a Deus. Invejar a sua felicidade, desejar para muitos essa vocação. Acolhê-los com naturalidade nas nossas vidas, nas nossas casas, na nossa cultura.

Não são gente estranha. São exatamente como tu, mas estão apaixonados. Por isso, não temem o julgamento dos outros, sabem que nunca estão sós e confiam que o bom Deus sustentará a sua entrega.

Fixas-te numa ideia, pões grandes expectativas num pequeno capricho e, se não acontece, deprimes.

É só um filme, uma visita, um concerto, um jantar, o plano mais banal! E fazes de tudo para que ninguém to roube. Mudas a agenda dos outros, exageras argumentos, desmarcas compromissos, desvalorizas imprevistos, mentes, choras. Só para que se cumpra um desejo pequenino, fraquinho, inútil, mas que tu esperas muito.

Quando, depois de cumprido, te soube a pouco, percebeste que não valia a pena dar tanta importância ao que não tem importância nenhuma.

Para as coisas da terra, baixa as expectativas. Não te prendas. Uma vida sem renúncia é muito pequenina.

Acontece-te cada uma! No trabalho só te calham incompetentes. Parece que não sabem fazer nada e ainda reclamam quando queres ajudar.

Lá em casa também estão com a neura. Fazem tudo para te contrariar e, à mínima, começam a discutir.

Em todo o lado te acusam de qualquer coisa. Não valorizam o teu esforço, nem a experiência que tens.

Já sei que essa gente não tem noção, mas lembra-te que é sempre fácil pôr a culpa nos outros. Talvez tenhas de mudar alguma coisa. Sim, tu.

Sim, vale. E é urgente contrariar esse fatalismo, a falsa ideia de que não há um amor para a vida. A falsa ideia de que é mais feliz quem está livre de compromissos.

A vida de entrega traz tanto as dificuldades como as maiores alegrias. Podes guardar a tua vida só para ti e fugir da dor que outros te vão causar, mas nunca saciarás um coração que foi feito para amar.

Quando vires que alguém vacila à tua volta, não te deixes contagiar. Defende o teu caminho, aprende a manter vivo o primeiro amor, confia na graça que Deus concede aos que se entregam. E compromete-te.

Um coração que arde vence qualquer obstáculo.

Às vezes, na Igreja, pensamos e falamos mal uns dos outros. A culpa é sempre deles, claro. Nós é que vivemos a caridade, nós é que estamos do lado certo.

Perdemos tempo e energia, convencidos que lideramos a reforma da Igreja. Citamos a história, decoramos os documentos, fazemos estatísticas. Usamos a Bíblia para confirmar a nossa cruzada.

Pensamos, no fundo, que somos mais generosos e temos mais amor a Jesus Cristo do que aqueles que criticamos. E o inimigo ri.

Só há uma Igreja, há um único Salvador. Viver e mostrar esta unidade – o amor que nos une – dará mais fruto que defender uma capelinha.

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