Tema: Fé

E vês outros sem nada, mas alegres.

Não! O truque não está no equilíbrio, nem na moderação. Não está no pensamento positivo, nem na libertação dos desejos. Não está na alimentação, nem na vida ativa.

Está no sentido que tem a tua vida, que não descobriste se ainda tentas encontrar felicidade no que possuis. E esse sentido é dado por Deus, não pelo sucesso, a saúde ou o dinheiro.

Tendo Deus, tens tudo.

Tendo tudo, nada.

Já não sabes voltar para trás e achas-te incapaz de seguir em frente. Estás perdido, sem remédio, sem esperança. Não te vês digno de perdão, quanto mais de amor.

Mas Jesus viu-te. E deixou o rebanho seguro para vir à tua procura.

Aí está, ao teu lado, como se só existisses tu. Tem todo o tempo do mundo, uma compreensão sem limites e um coração inteiro para te oferecer.

Deixa-te encontrar.

Já deves ter ouvido umas bocas de como essa expressão é contraditória! Não dá para acreditar na necessidade de algo e, na prática, considerá-lo desnecessário. Mais vale dizeres, simplesmente, que não és católico, ainda que tenhas tido essa formação e guardes apreço pelos valores cristãos.

Mas o que fazia mesmo sentido era começares a praticar! Perceberias que a tradição católica a que pertences vem da revelação de um Deus que é amor, que te ama, com quem podes ter uma relação de confiança, que trará uma nova luz à tua vida.

E como não há nada que se compare a isso. E como estavas longe do que não praticavas. Volta.

Deus é, para ti, uma espécie de amuleto. Podes pedir-lhe tudo mas não Lhe ligas nada. Dá-te sorte mas não te dá deveres.

Pedes boas notas quando não estudaste, pedes azares para quem não gostas, pedes uma conquista quando estás comprometido. Até pedes pelo negócio em que queres fugir aos impostos!

E reclamas! Pelas doenças, pelas contrariedades, pelo mal que te acontece, naturalmente convencido que é injusto.

Esse, que tentas comprar, não é Deus. Deus é quem te criou e te chama com um amor infinito. Pede que lhe dês a vida inteira e quer dar-te muito mais do que tu Lhe pedes nos teus desejos egoístas.

Pede-Lhe fé.

Bonito. E verdade, no fundo.

Mas o amor não anda no ar: tens de o personalizar. E assim, personalizado, vem carregado de sacrifício. Quem amas? E como dás esse amor? Como te cansas, como entregas o que te agrada, como aceitas os defeitos e as fragilidades, como reconheces as tuas fraquezas?

Não é tirar-lhe a poesia, é vivê-lo na realidade. É esse o amor que conta, é o único que vale. Como o amor de Cristo, por ti, na cruz.

Falta-te audácia. Tentas sempre pequenino, seguro. Não acreditas nas pessoas, nem no trabalho bem feito, nem no poder de Deus. Vives a enterrar talentos, teus e de outros, para não os perder.

Ao teu lado, fazem grandes coisas os que não conhecem Cristo. Atraem gente, trabalham bem, mexem-se.

Faz como eles, aponta alto. Tens os mesmos meios. Tens motivos maiores. E tens Deus!

A oração hoje está a custar-te. Não tens nada para dizer e os textos nada te dizem.

Olhas para o relógio, respondes a uma mensagem que é urgente (ou tão breve que não conta como interrupção!), deixas-te vencer pelo sono, pensas nas tarefas do dia, apressas as palavras, desenhas no caderno (mas um símbolo religioso!), suspiras, vês as notificações, desistes.

Não desistas.

Insiste, leva essa oração, com esforço, até ao fim. Não deixes que a relação com Deus dependa dos teus apetites ou do consolo que te traz. Fica. Como um bom amigo.

Rezas de vez em quando, para Deus ver, se existir.

Dizes a alguns que tens muita fé. Aos que se iam rir, dizes que não ligas a essas coisas.

Tens um terço no carro, ao lado de um amuleto qualquer. Não sabes o que é nenhum deles.

Acendes uma velinha quando estás atrapalhado, e piscas o olho a um santo de quem não sabes sequer o nome.

Vives como se Deus não existisse mas dizes-Lhe que sempre acreditaste, que pode contar contigo, que sabe como é que é, que não se esqueça dos amigos...

Achas mesmo que consegues enganar Deus?!

Medo de O irritar, de não suportar o Seu olhar terrível, de ter ido longe demais na minha culpa, de ter esgotado a minha parte na Sua misericórdia.

Medo do que me pudesse pedir, de que me enviasse ao que menos desejo, do que quisesse que eu Lhe oferecesse.

Medo que outros se rissem da minha fé.

Mas recebi nos braços o menino indefeso que nasceu em Belém. E eu mesmo sussurrei as palavras que me queria dizer: não tenhas medo, estarei sempre aqui.

Esse passo de entrega não é para ti. Dizes, humildemente, que não te achas à altura, que não tens o talento.

É mesmo isso? Ou é falta de generosidade? Saber que estás à altura mas não querer abraçar a entrega pelo esforço que implica? Não estar disposto a largar os teus tesouros? Esconder o talento com medo de ser visto a falhar?

Aqueles que se entregam não se acham à altura, mas sabem que Deus o está. E tentam.

Vês inquietação, vazio, miséria. Vês pobreza, dor, guerra. A loucura barulhenta que emudece uma vida sem sentido.

Mas Deus vai trabalhando silenciosamente. Como em Belém.

E não vês as mudanças interiores, as conversões. Tantos que se reconciliam e encontram paz. Não vês o que fazem lá longe aqueles que vivem pelos outros. Ou essa pessoa tão próxima que pede muito por ti. Não vês o bem maior que Deus tirará do que te custa. Nem a alegria simples dos amigos de Cristo.

Com fé, verás.

Sou pequenino, preciso que me dês a mão. Mesmo assim, às vezes, largo-a e lanço-me confiante nos meus passos trôpegos. E mais um trambolhão.

Pega-me de novo, desta vez ao colo. Já sabes que sozinho só sei tropeçar. Aí quererei falar continuamente, pedir-Te pelas minhas coisas.

Serena-me. Ensina-me a escutar a Tua voz e a perceber, mais suave, o bater do Teu peito.

E não terei medo de nada.

Não é um dia igual aos outros. É o do descanso da criação, é o da Ressurreição.

É o primeiro dia da semana, o da novidade radical que trouxe Cristo. É o dia em que celebramos a Eucaristia e nos lembramos de fazer da nossa vida uma Missa.

É o dia em que todos paramos para estar uns com os outros, em família, na nossa comunidade, em comunhão de intenções. Desde sempre.

É um dia para dedicar ao descanso e à oração, à leitura da bíblia, à relação com Deus e à missão.

Não dá jeito hoje? Para falhar um mandamento, não é razão suficiente.

Jesus é Deus. Não é um sábio, não é um guerreiro, não é um herói, não é um deus. É Deus.

E tu nunca o dizes quando falas Dele.

Talvez te pareça menos chocante apresentar Cristo pelo que Ele disse, pegando em alguma coisa que todos aceitem facilmente. Mas dizer que um homem é Deus é um escândalo.

E, contudo, é por isso que O segues.

Se esqueces o que rezas no credo, a tua explicação da fé não passa de um discurso querido, fofo, inútil.

Às vezes parece que falas de Jesus só para que O tolerem. Ou a ti...

Sempre tiveste gosto nas coisas de Deus, facilidade em rezar, entusiasmo na luta. Foste crescendo e ficando mais perto de Jesus com uma alegria que antes desconhecias.

Mas agora custa-te. Notas mais a tua fraqueza, não consegues tantas vitórias. Parece-te que a oração não resulta, que não te deixa vibrante para a luta diária. Vais contra o que te apetece.

E bem. É altura de crescer. Ainda achavas que parte do mérito era teu, que tinhas jeito para isto da santidade, uma vida interior interessante e exemplar.

Deus pede-te que sofras um bocadinho para estar mais perto Dele. Senão, como saberias que O amas?

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