Tema: Caridade

Disparas em todas as direções. Quando não concordas és terrível: desmontas ideias, destróis argumentos, mordes!

Mas ninguém sabe o que pensas. Não tens nenhuma proposta, não ofereces alternativa: destróis para nada erguer.

Parecia que a tua vida tinha um rumo. Afinal, só sabes por onde não ir. É assim que esperas que alguém te acompanhe?

Estão todos a andar no mesmo sentido, mas a tua consciência insiste que deves ir ao contrário.

Ninguém te diz nada. Só uns encontrões irritados, risos, olhares trocistas. Ao longe alguém berra: agarrem esse idiota, que ainda arrasta alguém com ele!

E insistes, com uma coragem que não é tua, guiado por essa voz interior. Ninguém te apoia, mas uma criança pega na tua mão e pede-te ajuda. Aumenta o peso, as críticas sobem de tom. Tens de a guiar.

Outra se agarra, ferida. E outra, doente. Carregas agora um pequeno grupo que o medo escondia da multidão.

Já se vêem, já contam. E já se ouvem, naquele êxodo, uns murmúrios frustrados: estes sabem para onde vão.

Preso a Cristo e puxando outros, não tens de fazer o que todos fazem.

Bonito. E verdade, no fundo.

Mas o amor não anda no ar: tens de o personalizar. E assim, personalizado, vem carregado de sacrifício. Quem amas? E como dás esse amor? Como te cansas, como entregas o que te agrada, como aceitas os defeitos e as fragilidades, como reconheces as tuas fraquezas?

Não é tirar-lhe a poesia, é vivê-lo na realidade. É esse o amor que conta, é o único que vale. Como o amor de Cristo, por ti, na cruz.

É bonita a tua preferência pelos mais fracos, a consideração que tens por quem sofreu ou sofre, a comoção que sentes pela dor e pela doença.

Mas chega a ser tão sentimental que lhes nega a autonomia, tão boazinha que lhes despreza a liberdade.

Ajuda no que podes, ajudando-os a dar o que podem. Não é preciso –nem bom!– desculpar tudo e tudo permitir. Há lutas a travar, talentos por descobrir, pecados a corrigir.

O caminho é diferente. Mas a proposta ainda é a santidade.

Não há mais nenhum no teu ambiente que, além disso, ainda acha ridículas as tuas ideias. Preferias não ter de guardar a fé com tantos riscos de imagem ou tanta sede de confronto. Tens medo.

Mas o teu papel aí não é brilhar, nem vencer. É servir.

Em vez do grupo, pensa nas pessoas uma a uma: este, aquela, o outro... Consegues ter, para cada um, os mesmos sentimentos de Cristo?

O ambiente, o grupo, a multidão, continuarão a assustar-te. Mas a amizade não mete medo. E um bom amigo é um exemplo eloquente da mensagem de Jesus. És?

Agradeço que mo digas. Mas não chega. Ainda não percebeste que não estou a conseguir largar?

Dá-me razões, explica-me como se larga, diz-me a que me devo agarrar. Os argumentos de autoridade já os conheço bem. Não mandes: acompanha-me, anima-me, ajuda-me.

Eu conheço a lei de Deus. Queria conhecer agora o Seu amor. Poderei contar com a tua paciência?

Ele não sabe mas eu não lhe digo nada, ainda se zanga. Podia ser muito mais feliz se se desse conta, mas sei lá se estaria interessado. Até tenho sugestões para os problemas que atravessa, mas prefiro que ele peça.

Sim, somos amigos. Partilho tudo com ele, mas há coisas que são muito pessoais, percebes? Eu acho que ele não iria compreender. E precisava de tempo, neste momento estou sem tempo. E sem cabeça também para grandes explicações. É que eu não tenho muito jeito para falar.

...

Mais um pobre homem a quem ninguém falou de Deus... até parece que para o bem dele!

Não sejas egoísta.

São precisos, importantes. Quando se trata de amar os outros e quando se trata de amar a Deus. Não é piegas, é coerente!

Imagina uma mãe que nunca abraçou o filho, nunca lhe disse ao ouvido palavras ternurentas, nem deixou escapar pelo olhar um pormenor de afeto… Por muito amor que guarde, dirias que é perfeita a sua expressão?

Assim é contigo, que escondeste a sensibilidade na gaveta e agora pretendes amar sem corpo… Deixa-te disso! E lança um beijo à tua mãe do Céu.

Tens amigos, uma vida social intensa, uma boa imagem e até seguidores.

Mas nas últimas horas não recebeste um elogio, nem um telefonema de alguém a desabafar ou a contar um segredo, nem um comentário nas tuas publicações, nem um convite para um plano qualquer.

Ficaste triste! E com medo de não voltar a ser importante. Fazes coisas boas porque persegues a boa imagem. Vives de elogios, aprovações e atenção, ao ponto de te deixares inquietar se começam a faltar.

Nunca terás segurança se não o entregares. Vive para os outros, sem medir o que importas.

Isto não se pergunta!

Nem aos amigos, nem ao marido ou mulher, nem aos filhos. É a intimidade da pessoa com Deus e pode ser a pergunta pelos pecados que cometeu.

Além disso, essa pressão já levou gente que não o queria a comungar para ser visto.

Não perguntes. Se te preocupa, reza. Se é curiosidade, cresce.

Eras tu quem estava atento e presente, quem reparava no que faltava. Adivinhavas necessidades e inventavas surpresas. Custava-te menos o cansaço do que deixar alguém por cuidar.

Mas agora invertem-se os papéis: é necessário que te deixes cuidar. Com abandono, sem reclamações, sem ensinar. Sem veres humilhação na vulnerabilidade, como não vias quando eras o cuidador.

Não és um peso, és um tesouro. Sê dócil.

Achas que agi mal. Dizes que terias feito diferente, escolhido outro caminho. Que o que é preciso fazer se faz. E pronto!

Põe-te no meu lugar. Vive o que eu vivi, nas mesmas circunstâncias, rodeado pelas mesmas pessoas, com a mesma capacidade e ânimo.

Nem sempre agi bem, tu julgaste sempre. Umas vezes acertando, outras injustamente. Nunca na minha pele.

Não tens de julgar, não te compete, não tens informação. Nem tens a justiça e a misericórdia de Deus. Mas precisas de tema de conversa...

Trata os outros como gostarias de ser tratado. Nunca to disseram porque não sabem o que pensas, nem ouvem os teus sussurros.

Tens mesmo graça. És criativo, oportuno, sagaz e atento. É um dom de Deus que deves fazer render, mostrando a todos a alegria verdadeira.

Mas precisas de mais delicadeza para que as tuas piadas não magoem. Apanhas logo as fraquezas do outro e consegues que todos se riam... dele!

Podes brincar, sim. Mas também podes ser delicado e perceber quando o próprio não acha graça. E parar logo, mudar de assunto, retirar dele a atenção.

Deus sorriu com aquela piada inesperada e inteligente que, por caridade, não mandaste.

Tinha que ser agora, era o momento ideal. Fizeste planos, estavas entusiasmado com a expectativa... E não deu. Vai demorar tempo.

Deste muitas horas, empenhaste-te como em nenhum outro projeto, tinhas uma certa segurança de que daria... E falhou. Precisava de mais dedicação.

Estavas a lutar bem, um longo período sem quedas. Animado com a ideia de deixar um problema para trás... E caíste. É preciso voltar ao início.

Estás farto de lhe dizer, já conversaste com calma, já lhe deste razões... E ele não muda. Ainda não consegue.

Com paciência verás muito mais frutos: maduros e colhidos nos tempos de Deus. Espera.

A imperfeição escandaliza-te. Comentas, corriges, cortas, limpas. Não tens a mínima preocupação por ser simpático, acolhedor ou compreensivo.

Representas a justiça divina do alto da tua cultura religiosa. Não falas de outra coisa que não os pecados dos homens, que julgas sem conhecer. Cansas!

Eu conheço alguns dos meus pecados: quero e tento evitá-los. Mas o medo de Deus que me inspiras não me ajuda em nada. Não peço que chames bem ao que é mal, peço que me ajudes.

Essa postura escrupulosa não te ajuda nem a ti. E fez-te esquecer a caridade mais simples.

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