Tema: Desprendimento

E vês outros sem nada, mas alegres.

Não! O truque não está no equilíbrio, nem na moderação. Não está no pensamento positivo, nem na libertação dos desejos. Não está na alimentação, nem na vida ativa.

Está no sentido que tem a tua vida, que não descobriste se ainda tentas encontrar felicidade no que possuis. E esse sentido é dado por Deus, não pelo sucesso, a saúde ou o dinheiro.

Tendo Deus, tens tudo.

Tendo tudo, nada.

Insistes nos planos, companhias e locais que puxam pelo pior de ti. São ocasiões de pecar e, normalmente, pecas.

Ninguém notava se faltasses, mas não o queres largar –não dás tanto a Deus!– porque achas que és tu quem deve crescer na fortaleza: outros vão e não caem.

E tens uma teoria bem construída sobre a proximidade a esses sítios onde Deus não está e onde, supostamente, O levarias. Mas acontece o contrário: é ali que esqueces Deus.

Deixa a teoria nas mãos Dele. Talvez seja preciso lá ir, mas talvez seja de outro modo. E talvez não sejas tu, que és forte para muita coisa, mas ali tremem-te as pernas. Pôr Deus em primeiro, tem consequências.

Chocas, uma e outra vez, contra as tuas limitações. E mesmo assim, vês o que podes fazer por Deus. Até o que, aparentemente, chega aos outros pelas tuas mãos.

Podes ser o último de todos, que Deus continua a confiar em ti, continua a contar contigo, a pedir-te coisas grandes.

As tuas misérias? Não te impedem de amar, nem a Deus de te amar. Não te impedem de poder, nem a Deus de te pedir.

Deixa-O confiar. Confia. E entrega-te.

Falta pouco para o bebé nascer. Vamos de viagem, com Maria e José, para preparar o grande dia.

Até ao Natal, tenta trazer na cabeça e no coração o milagre que se aproxima. A confissão prepara a tua alma para estares mais leve na viagem e para que Jesus ali possa descansar. O diálogo com Nossa Senhora enche-te do desejo de entrega ao Rei que vai nascer. E ao sentir as dificuldades do caminho podes subir aos ombros de São José.

Espera! Menos comida e presentes: trazes demasiadas coisas mas é a ti que Jesus quer ver.

Não tens de controlar tudo, nem podes. É demasiado para ti.

Não tens que explicar tudo, nem sabes. É esgotador querer ser Deus.

Aceita os momentos de dúvida, aceita as imperfeições, aceita a fragilidade que trazes dentro e te recorda que há outra luz. Suave, bela, constante, que aponta a Quem te diz: vem a Mim, se estás cansado. Eu te aliviarei.

Não é só para padres, freiras e religiosos. É para cristãos! Ser casto não é abster-se de relações sexuais sem mais, mas viver a sexualidade de forma íntegra e autêntica. É olhar para as pessoas e não ver apenas corpos; é querer amá-las, não possuí-las.

Para os celibatários, isso significa abster-se de relações sexuais; entregar-se inteiramente a Deus e aos outros. Para os casados, isso supõe uma total abertura à vida; ou um celibato temporário, por ocasião de uma gravidez complicada, doença ou viagem, por exemplo. Para os restantes: a castidade é guardar-se em favor daquele/a que virá. Em todos os casos, a virtude implica renúncia ao mero apetite; é doação, entrega, missão.

Ser casto é amar, com o corpo.

Na vida espiritual, as coisas nem sempre acontecem como nas disciplinas científicas, em que nós vemos e agimos em conformidade. Muitas vezes, a luz para ver é simultânea à força para querer. Porque o nosso eu está metido ao barulho até mais não! Tem hábitos e inclinações, que custam despedir e, por isso, ofuscam a vista.

Isto dá que, para discernir a vontade de Deus, é preciso trabalhar antes de mais a disposição para acolhê-la. Fazer-se pequeno, minúsculo, ínfimo. Abrir mão das nossas seguranças. Pedir tudo. Confiar. Numa frase, repetir em confidência: “o que Tu quiseres, quando Tu quiseres, como Tu quiseres”. E então soará claramente o apelo divino.

Onde está o teu trono? Os teus súbditos? O teu domínio?

–No frio de Belém, na dor da cruz, na solidão do sacrário. À espera do exército dos pobres, dos loucos, dos doentes, dos abandonados. De ti, quando me entregares o teu pequeno reino, esse coração, que é meu. Para construir, também aí, um reino de amor, de esperança e de liberdade. Dás-mo?

Sou pequenino, preciso que me dês a mão. Mesmo assim, às vezes, largo-a e lanço-me confiante nos meus passos trôpegos. E mais um trambolhão.

Pega-me de novo, desta vez ao colo. Já sabes que sozinho só sei tropeçar. Aí quererei falar continuamente, pedir-Te pelas minhas coisas.

Serena-me. Ensina-me a escutar a Tua voz e a perceber, mais suave, o bater do Teu peito.

E não terei medo de nada.

Já não és uma criança. A vida é uma coisa séria, traz obrigações e responsabilidades. E tens de as assumir: não podes ser o engraçadinho que faz rir os outros porque quebra as regras, porque é desleixado e irreverente. Faz-te adulto.

Diante de Deus ainda és uma criança. E as responsabilidades da vida ficam entregues nas mãos do teu Pai, depois de fazeres o que podias. Assim vives com leveza, com sentido de humor, rindo-te de ti próprio e da importância que te dás. Sem medo de um Deus que te quer feliz. Faz-te pequeno.

Não houve santos tristes.

Surge como obrigação, necessidade que aceitas com abnegação e virtude. E dás tempo, energia e cabeça para cuidar de quem precisa de ti.

Mas há mais. Aqui somos felizes fazendo felizes os outros. Se puseres alegria, tirarás alegria.

Agradece o que aprendes dos mais necessitados, da sua história rica, da humildade com que se põem nas tuas mãos, das suas lutas e recomeços. Não há descartáveis.

Cuida –ouve, trata, limpa, sara– com alegria! É um privilégio teres agora alguém confiado, a quem podes retribuir o que recebeste, a quem podes fazer feliz. Em quem tens Cristo.

Desculpa, não te falei. Desculpa, falei muito tempo. Se calhar estavas à espera de outra coisa, não expliquei bem. Expliquei demais, não foi? Fui um bocado rude. Devia ter sido mais firme. Se calhar preferias diferente. Estive pouco contigo. Estive muito contigo. Talvez não gostes. Fui chato? Estou a ser chato?

Não aguento tanto cuidado! Agradeço as atenções, mas perguntas tantas vezes se agradaste que só queres ouvir a aprovação. É amizade ou querer ficar bem?

Já sei que és inseguro. Há mais segurança no desprendimento: não perguntes.

Tudo ao detalhe, com previsão e prudência. É uma necessidade! Ficas inquieto com o que não controlas. Fazes listas, tabelas, rotinas, verificações, testes.

Sempre descansaste nessa qualidade mas agora a vida trouxe-te surpresas. Os planos falham, as pessoas não se programam, há detalhes que não controlas. E Deus trocou-te as voltas.

Tens de encontrar espaço para entregar e confiar. Aceitar o imprevisto, fazer à maneira de outros. Desprendido da tua vontade e querendo a de Deus, que sabe mais e faz melhor.

Olhar nos olhos, dar opinião, convencer, escutar, corar, consolar, dar conselhos, contar histórias, expressar-se, partilhar, aprender...

Sem recorrer ao vídeo quando o tema arrefece, sem perguntar ao Google quando surge uma dúvida, sem registar em fotografia, sem ler as notificações que chegam de fora... sem interrupções.

Coisas do passado para experimentar entre amigos e família. E sempre na oração.

Foste avisado, preveniram-te, ofereceram ajuda. E desiludiste. Caíste com força na lama, onde ficaste a rebolar, afundando-te na própria miséria.

Nem tens coragem de aparecer. Estás envergonhado, querias fugir e esconder-te, encontrar qualquer desculpa. Nunca um erro te pesou tanto.

E Deus?

Que Lhe disseste? Que ajuda e perdão pediste? Lembras-te do filho da parábola, que fez pior que tu e que o pai esperava à porta? É isso que conta, não o juízo da multidão.

A consciência da fraqueza far-te-á confiar em Deus e a vergonha de seres visto no chão é uma ajuda para a próxima luta. A contrição, dor de amor, pode levar-te mais longe do que podias antes.

Confuso? Nossa Senhora explica isto bem.

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