Tema: Desprendimento

É um dom. Pede-o, deseja-o, mas não o exijas.

Não é um prémio, não tens que o merecer. Não é teu, é de Deus.

Não é mercadoria, não o podes comprar. Não é descartável, não o podes abandonar. É livre, não o podes prender.

Aceita como missão os filhos que Deus te der. Confia se a tua missão for não os ter. Deixa-O fazer o plano e enche-te de amor: primeiro para acolher, depois para deixar ir.

Há intenções que são maiores do que tu. A paz no mundo, a unidade da Igreja, a salvação de uma alma, a conversão de um amigo, a vocação de alguém... Como rezas? Que tamanho tem o teu coração para desejar verdadeiramente o que pedes?

Pedes por ser necessitado. Mas não pedes sinceramente se não queres dar também tudo o que tens. Diz ao Senhor que o deixas nas Suas mãos, que queres tanto o que Ele quer como Ele próprio. E que estás disponível para tudo se Ele quiser contar com isso para essa intenção.

Pensas neste ato de entrega, no que temes que Deus te peça e ficas com o coração nas mãos. Se for nas mãos Dele, terás paz. Com Deus, é mais seguro largar as seguranças.

Isso mesmo em que estás a pensar.

Diz-Lhe que o davas. Que te custaria muito mas estarias disposto. Diz-Lhe que pode pedir-te qualquer coisa, que tu quererás sempre aceitar a Sua vontade. É a única decisão que está sempre certa.

E assim abandonado em Deus, verás que Ele próprio te dá o que pediu.

É o que dizes quando acrescentas lixo a essas gavetas cheias de coisas que nunca vais usar. E ocupas espaço, carregas pesos, arrastas bugigangas que só recordas ao pensar que as podes deitar fora.

Assim é a tua entrega. Não queres largar tudo, ainda não confias em Deus. E com a saída fácil do "não exagerar", vais guardando umas esperanças sensuais, compras confortos caros e desnecessários, mantens o mesmo apego à tua imagem, não chegas a queimar-te por Cristo.

Guardas para ti o que pode vir a dar jeito... se Deus falhar.

Tonto! Deus não falha. E quer dar-te a uma vida nova, mas tu continuas agarrado ao chão...

Jesus, um dia havia de sentir falta do que entreguei. Sabia-o, mas envergonha-me esta leve esperança de o reaver. E com inveja dos outros, tenho pena de mim.

Sim, devolve-me o que Te dei. Mas não como o pus nas Tuas mãos. Dá-me antes o Teu coração em troca do meu, dá-me os Teus cravos em troca da minha liberdade, dá-me o Teu afeto em troca dos que larguei, dá-me a Tua paz em troca da minha ambição, dá-me o Teu amor em troca da minha vida.

E, em troca do meu entendimento, a luz. Para ver como ganho, dando-Te o que queria guardar.

Não te queres comprometer, não queres gastar tempo a ajudar, não queres ter filhos, não queres cuidar, não queres defender uma causa, não queres ter pesos, não queres arriscar.

Ligas muito ao ginásio, à dieta, à rotina, ao cão, à tranquilidade, à imagem, ao lugar...

Desculpa, não tens esperança?

Não te ponhas à frente, não fales bem de ti, não te consideres melhor que ninguém.

Não te faças indispensável, não queiras ficar com tudo, não reclames louvores.

Não te olhes tanto ao espelho, não controles os seguidores, não dependas da imagem.

Não escolhas primeiro, deixa o melhor para outros, faz sem que agradeçam.

Desaparece, vive para os outros, dá o teu lugar. É o que faz Deus por ti. Ele chega.

Há muito que pensas entregar-te, dar o teu coração inteiro. Tens diante de ti um panorama imenso, bom, repleto de alegria.

Mas não tens a certeza. Pode não ser o teu caminho, pode ser um entusiasmo passageiro, pode ser uma ilusão, pode ser muito difícil, pode ser depois, pode ser para outros.

Pois pode.

Mas também pode ser Deus. E pode ser que não tenhas outro momento tão belo, com a mesma disposição, com tanto para dar, com tanto pela frente. Já pensaste, já rezaste, já perguntaste... só falta decidires. Agora?

Que filmes passam na tua imaginação! Sem razão nenhuma, tens sempre medo que aconteça o pior. Se é possível? Sim, é possível... Mas tão pouco provável quanto podes comprovar que nunca acontece assim.

A tua vida segura por prudência é, na verdade, encolhida por medo.

Confia e arrisca mais. Vive com a liberdade de quem sabe que Deus está atento.

Também faz parte da entrega aceitar o que não podes controlar. Dá o comando a Deus.

Deus pediu-te tudo. Tu deste muito, quase tudo.

E pareces entregue, és generoso, dedicas tempo e energia às coisas de Deus, renuncias a muito para O seguir.

Mas deixaste alguma coisa para ti. Pequena, fina, que só tu vês e te tira a paz. É esse modo de trabalhar? É uma segurança para o futuro? É fugir da sinceridade? É recusar trabalhos menores? É o teu estatuto? É o que tanto te custou conquistar? O que é que não Lhe queres dar?

Confia em Deus. A alegria vem depois da entrega, o passo maior da liberdade.

Com estes defeitos e misérias? Com os erros que cometi? Com o bem que desprezei? Com as escolhas erradas do meu passado? Com os maus desejos do meu futuro? Com as oportunidades desperdiçadas? Com o mal que guardo no coração? Com esta incapacidade de perdoar?

Sim. Deus ama-me.

É o grande anúncio desta vida. É o que leva querer mudar tudo aquilo. É o único motivo de uma paz certa: não haverá nunca nenhuma razão para duvidar do amor de Deus por mim.

E que diferença isto faz!

E vês outros sem nada, mas alegres.

Não! O truque não está no equilíbrio, nem na moderação. Não está no pensamento positivo, nem na libertação dos desejos. Não está na alimentação, nem na vida ativa.

Está no sentido que tem a tua vida, que não descobriste se ainda tentas encontrar felicidade no que possuis. E esse sentido é dado por Deus, não pelo sucesso, a saúde ou o dinheiro.

Tendo Deus, tens tudo.

Tendo tudo, nada.

Insistes nos planos, companhias e locais que puxam pelo pior de ti. São ocasiões de pecar e, normalmente, pecas.

Ninguém notava se faltasses, mas não o queres largar –não dás tanto a Deus!– porque achas que és tu quem deve crescer na fortaleza: outros vão e não caem.

E tens uma teoria bem construída sobre a proximidade a esses sítios onde Deus não está e onde, supostamente, O levarias. Mas acontece o contrário: é ali que esqueces Deus.

Deixa a teoria nas mãos Dele. Talvez seja preciso lá ir, mas talvez seja de outro modo. E talvez não sejas tu, que és forte para muita coisa, mas ali tremem-te as pernas. Pôr Deus em primeiro, tem consequências.

Chocas, uma e outra vez, contra as tuas limitações. E mesmo assim, vês o que podes fazer por Deus. Até o que, aparentemente, chega aos outros pelas tuas mãos.

Podes ser o último de todos, que Deus continua a confiar em ti, continua a contar contigo, a pedir-te coisas grandes.

As tuas misérias? Não te impedem de amar, nem a Deus de te amar. Não te impedem de poder, nem a Deus de te pedir.

Deixa-O confiar. Confia. E entrega-te.

Falta pouco para o bebé nascer. Vamos de viagem, com Maria e José, para preparar o grande dia.

Até ao Natal, tenta trazer na cabeça e no coração o milagre que se aproxima. A confissão prepara a tua alma para estares mais leve na viagem e para que Jesus ali possa descansar. O diálogo com Nossa Senhora enche-te do desejo de entrega ao Rei que vai nascer. E ao sentir as dificuldades do caminho podes subir aos ombros de São José.

Espera! Menos comida e presentes: trazes demasiadas coisas mas é a ti que Jesus quer ver.

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