Tema: Sinceridade

Se te perguntam que católico queres ser, dizes coisas acertadas. Falas de amor e paz, de união e diálogo, da natureza, de respeito. Mas nunca explicas que motivos te diferem de alguém que não tem fé.

Como se fosse secundário seres filho de Deus, que te criou por amor e te chamou pelo nome, teres sido salvo por Jesus, teres uma vida de oração, comungares o corpo de Cristo, desejares ir para o céu.

Tens de cuidar do mundo e dos outros. Mas sem cuidares da tua alma, não cuidas de ninguém.

Volta a pensar que católico queres ser, desta vez à frente do sacrário. Jesus morreu por ti. Morrerias por Jesus?

No desporto até é fácil. Mas nas ideias...

Lutas mais pela derrota do teu adversário do que por amor à verdade. Nem devias chamar-lhe adversário: se estás do lado de Cristo, todos estão do teu lado.

E se isto é verdade para qualquer um, mais ainda quando discutes temas doutrinais com outros católicos. Não entendo que te alegres por humilhar alguém. Ainda que tenhas razão, essa altivez não atrai para a verdade.

Diz o que pensas. Mas se for para humilhar, espera. Já o dirás quando estiveres capaz de o dizer por amor.

A de ontem foi igual à de hoje. Podia ser a tua oração como a de outro qualquer.

É que não é pessoal. Não falas com Deus de ti, do que te preocupa, do que devias mudar. Do que te tira a paz, do que não queres largar.

Por isso te custa tanto. Às vezes ainda consegues puxar por um sentimento forte, mas também não é teu, é do grupo. E não chegas a ver os frutos da oração na tua vida.

Jesus quer ter amizade contigo. Para isso tens de ser transparente, abrir a alma, mostrar fragilidades, expor feridas, reconhecer culpa. Verás a diferença quando a conversa for sincera.

És um bom profissional. Responsável, generoso, competente. Cresceste no teu trabalho com esforço, com disciplina, com rigor. Todos sabem que lhe dás valor e que é para ti uma prioridade.

Por isso, tornou-se a desculpa perfeita.

Por teres de trabalhar, esquivas-te a muitas coisas que não te apetece fazer. E ninguém põe em causa as tuas razões profissionais. Mas tu podes pôr.

Deus, família, amizades... Há deveres que devem passar à frente do trabalho. Por muito CEO que sejas!

Mas é preciso ir ao limite? Ou só queres saber o que é pecado, para poder chegar o mais perto possível?

Se não gostas, não bebas. Se é para te armares em forte, deixa de ser ridículo. Se precisas de te embebedar para desfrutar, procura o que te traz uma alegria verdadeira. A do álcool é falsa.

É insensato, irresponsável e egoísta beber para perder o controlo sobre ti próprio. É insensato, irresponsável e egoísta desculpar-se com as ocasiões especiais.

Sem esse controlo podes fazer mal a ti e aos outros. Não percebo que amor é o teu quando escolhes livremente correr esse risco.

Bebe, desfruta. E quando isso prejudicar a tua capacidade de servir, para. Se vês a tontura a chegar, pede um suminho.

Usas demasiado esta desculpa. Não sabes, não tens jeito, os outros fazem melhor. Sobretudo para tarefas que não queres fazer, que não dão gosto. Ou que não são próprias da tua condição!

Quem sabe, aprendeu. Também podes aprender.

Não é preciso um curso para mudar uma lâmpada, nem para limpar a travessa que caiu inteirinha no chão, nem para fazer um telefonema.

Talvez nunca aprendas a cantar! Talvez não sejas mestre onde não tens jeitinho nenhum. Mas podes, e deves, fazer muito mais: não te falta talento, falta generosidade.

És muito disponível. Quase sempre movido por uma genuína vontade de ajudar. Mas, na verdade, sabes que há outros motivos para essa generosidade.

Estás disponível para quem te elogia, disponível para pessoas bonitas, disponível para o que gostas, disponível para os influentes, disponível para o que promete...

E não estás disponível em casa.

Já sei que é onde passas mais tempo, mas há uma prontidão e empenho, que mostras noutros lugares, que não tens na tua principal missão. E reclamas, sobrecarregado, com o muito que já fazes.

Antes do que apetece, faz o que deves. Do que te atrai fora, existe melhor em casa.

Como não deves? Tudo te foi dado! A vida e os talentos que tens, as oportunidades que aproveitaste ou deixaste passar, as alegrias e a esperança. Tudo dom.

Se não reconheces a tua indigência, nunca acolherás o amor de Deus, nem a necessidade que tens dos outros.

Não serás agradecido, não serás humilde.

E serás, provavelmente, bastante insuportável.

Tens um fascínio por novidades. Coisas diferentes e únicas que apresentas sempre como enriquecedoras. A verdade é que tens uma conversa interessante, coisas para contar, curiosidades.

Mas andas sempre à superfície: não aprofundas um tema, não te comprometes com nada, não trabalhas verdadeiramente os teus talentos. E andas longe de Deus: atrai-te mas não te sabes dedicar.

Como aquele especialista em relações, porque teve muitas: nada sabe de amor, porque nunca teve um.

Começa a fazer escolhas.

Rezas de vez em quando, para Deus ver, se existir.

Dizes a alguns que tens muita fé. Aos que se iam rir, dizes que não ligas a essas coisas.

Tens um terço no carro, ao lado de um amuleto qualquer. Não sabes o que é nenhum deles.

Acendes uma velinha quando estás atrapalhado, e piscas o olho a um santo de quem não sabes sequer o nome.

Vives como se Deus não existisse mas dizes-Lhe que sempre acreditaste, que pode contar contigo, que sabe como é que é, que não se esqueça dos amigos...

Achas mesmo que consegues enganar Deus?!

Ficamos encantados com frases redondas. Erguemos o nosso edifício espiritual com os refrões que nos tocaram o coração. Trocadilhos giros, paradoxos, rimas, entoados bem alto.

Mas sem questionar o que dizem.

Onde acaba a tua liberdade? Por que é teu o teu corpo? O que dá dignidade à morte? O que é uma construção social? Quem dita os limites da tolerância? O que define o progresso? De quem recebeste os direitos?

Diz com convicção o que achas, mesmo que o repitas de outro. Mas tenta perceber o que dizes para poder viver com coerência. As palavras têm consequências além dos likes.

Partilhas tudo. O que fazes, onde, com quem. Têm de ver, têm de saber. Nem sabes do que gostas, só do que fica bem. Expões, expões-te, até à intimidade. Nada é só teu.

E na verdade não partilhas coisa alguma. São superficialidades que adjetivas para parecerem profundas. Mas não chegas dentro, a quem és, ao verdadeiro.

Ficaste sem nada -sem ti próprio- para partilhar. O mais popular vive só e vazio.

Larga as redes.

Às vezes não porque estás distraído. Ou porque queres ser discreto. Mas deves responder de modo que se ouça, que se note que afirmas o que crês, para quem está à tua volta e com eles.

E como não estás sozinho, tenta responder ao ritmo dos outros, uníssono, reforçando o sentido de pertença a essa comunidade.

Também não é preciso gritar! Por berrares as orações ao teu ritmo não pareces mais piedoso: pareces surdo!

A formosura atrai e vocês fazem um belo par!

Mas tens de abandonar o ar sobranceiro de quem passeia na rua uma peça de caça. E deixar de pensar que só tem sucesso quem conquista o melhor do catálogo.

Queres construir uma família. Começas mal se não consegues ver a beleza escondida. A que o amor descobre, cuida e guarda, para que ninguém roube.

Também quando o trabalho é entusiasmante, também quando há uma oportunidade de ganhar muito dinheiro, também quando há pessoas pendentes de ti.

Também quando há muito que fazer em casa, também quando há tensão ou tédio em família, também quando a doença invade a tranquilidade.

Também quando o trabalho é a desculpa ideal para fugires do compromisso. Recomeça.

Posts mais antigos