Tema: Sofrimento

Escolher é arriscar. Amar é escolher. Amar é arriscar.

Deus correu o risco da nossa liberdade, quis que O pudéssemos escolher ou recusar porque não há forma de amar sem ser livremente.

A tua vida está cheia de provações, pequenas e grandes, no esforço por fazer o bem, no peso de aceitar a dor. Podes desistir e revoltar-te. Ou podes escolher aceitá-las como um convite de Deus: a tua fidelidade é sempre resposta a um amor que te chamou primeiro.

E quando sentires o medo de arriscar por Ele, lembra-te que já arriscou tudo por ti, entregue no alto da cruz. Quem escolhes?

É quando mais te custa a fidelidade a Deus. Dizes a verdade e chamam-te traidor. Ou deves faltar a um plano e pensam que o fazes por desprezo. Ou pões Deus em primeiro e respondem-te com ciúmes. Ou proíbes para proteger e acham-te ditador.

Apoia-te na Cruz para viver serena e firmemente esses tempos. Ceder agora seria um alívio. Mas não seria bom, nem verdadeiro, nem caminho de felicidade.

E que os outros se possam apoiar na tua caridade e alegria para perceberem, com tempo, que afinal estavas certo.

A dor, o desprezo, a vergonha, a solidão. Tudo o que temes e de que foges. Tudo aceitou Jesus, amando-nos até ao fim.

Assim está no sacrário, entregue em cada gota, inteiro numa migalha, sem defesas, sem barreiras. Disponível para beijar os teus pés, sujos dos maus caminhos. Aceitando cada beijo teu, que te sabes capaz de O trair.

E é Deus.

Como O tratas na Eucaristia?

Aqui, confortáveis, a perder tempo no Instagram, passa-nos ao lado o sofrimento de quem vive em guerra. O que nos chocou ao início, com o tempo torna-se indiferente.

Mas, para um cristão, não pode ser indiferente a dor de ninguém.

Que Jesus nos dê um desejo grande de paz, para nós e para os outros. E conceda ao mundo inteiro a paz que mais ninguém pode alcançar.

*

O Papa pediu que nos unissemos a rezar pela paz. Hoje rezando o terço, amanhã com um dia de jejum e oração.

Tinha que ser agora, era o momento ideal. Fizeste planos, estavas entusiasmado com a expectativa... E não deu. Vai demorar tempo.

Deste muitas horas, empenhaste-te como em nenhum outro projeto, tinhas uma certa segurança de que daria... E falhou. Precisava de mais dedicação.

Estavas a lutar bem, um longo período sem quedas. Animado com a ideia de deixar um problema para trás... E caíste. É preciso voltar ao início.

Estás farto de lhe dizer, já conversaste com calma, já lhe deste razões... E ele não muda. Ainda não consegue.

Com paciência verás muito mais frutos: maduros e colhidos nos tempos de Deus. Espera.

Fazes muitas contas. Dás peso a virtudes e pecados e controlas a tua balança. Ora tens saldo para fazer umas asneiritas, ora corres a praticar a virtude com medo que Deus te apanhe distraído.

No meio é que está a virtude, dizes. E vais mantendo o jogo empatado, contando dar mais no prolongamento, mas com um secreto medo da cega justiça dos penalties.

Quem faz contas à entrega, joga mal e sem gosto. O mais provável é que desista.

Quem entra em campo por amor, cansa-se e sofre. Mas receberá, do próprio Cristo, a coroa da glória.

A presença de Maria consola sempre, e Fátima tem o dom de nos transmitir confiança. Mas a mensagem é muito exigente.

Nossa Senhora pediu a umas crianças que rezassem o terço todos os dias, e eles rezavam vários. Pediu-lhes um grande amor a Jesus na Eucaristia, que eles mostravam na Sua adoração. Pediu-lhes penitência, que eles faziam pelos seus pecados e pelos nossos. Pediu-lhes uma devoção ao Papa, que amavam sem poder compreender. Pediu-lhes que sofressem com fé, por amor a Jesus.

O impressionante clamor que se ouve naquele santuário, não é só um pedido pelas nossas pequenas intenções: é a prece à mãe de Deus pela salvação das nossas almas.

Jesus entra hoje em Jerusalém sob o aplauso dos mesmo que O entregarão à morte em poucos dias. Somos assim tu e eu: caímos com estrondo depois de declarações de paixão a Cristo.

Começa a semana santa. Deixa-te mover pela Paixão do Senhor para que o teu coração compreenda a paixão com que O deve amar. A que aceita padecer.

Vive a Paixão de Cristo com Ele. Oferece-te para carregar a cruz e sofrer pelos homens. Não és apaixonado se viras as costas sempre que custa um bocadinho.

Pergunto-me muitas vezes porque sofro. Às vezes irritado, outras resignado. E só me abeiro da aceitação quando o pergunto a Ti, Jesus.

Não é que me expliques. Mostras.

Com a Tua paixão e morte, suportaste o que eu passei, aceitaste-o, amaste-o. Na tua dor está a minha, que já não tenho que levar só.

Olhando para a cruz, às vezes fica mais claro. Fica sempre mais fácil. Sozinho é que é difícil.

*

Pela devoção à via sacra de Jesus viverás melhor esta quaresma. Aparece hoje na Alameda Afonso Henriques, em Lisboa, às 21:00, para acompanhar, com o Patriarca, os passos de Cristo na Sua paixão.

Como escreve São Paulo, «os atletas impõem a si mesmos toda a espécie de privações: eles, para ganhar uma coroa corruptível; nós, porém, para ganhar uma coroa incorruptível» (1 Cor 9, 25). Quando te sentires desanimar, pensa na grandeza do prémio que te espera: uma eternidade com Deus. Um troféu que merece todos os sacrifícios, todos os esforços. Um troféu que começas a saborear já aqui, na terra.

São Paulo ensina-nos que, «em Cristo, tudo concorre para o bem dos que amam a Deus» (Rm 8,28). Tudo. As dificuldades, os sofrimentos, as coisas pequenas e as grandes, as normais e as inexplicáveis, e até os pecados de que te arrependes. Entrega-Lhe tudo e confia. Deus aproveitará tudo para te fazer santo. Até os pregos que massacraram Jesus tiveram utilidade para a salvação do mundo.

Às vezes, Deus não explica. Mas mostra.

Estende-te a mão e fica a teu lado quando sabes que sobram as palavras. Já virão, quando estiveres pronto para as compreender.

À pergunta pela dor, Deus responde de dentro. Suportou-a –também a tua– na Cruz. Para a aceitar, amar e vencer.

Choras? Chora com Ele.

***

Diante o sofrimento, duvidas de Deus? E quem fica para te responder?

Fazes tua a dor de quem amas, suportando-a ao seu lado, sendo Cristo para os outros? Ou foges?

É que é preciso muito mais que isso!

Respeito, admiração, carinho. E disposição de ouvir, aprender e cuidar. Carregaram às costas a sua vida e a nossa.

Como cristãos, sabemos para que estamos nesta terra. Fará algum sentido abandonar quem vive a última etapa dessa jornada? Pobre cultura a que vê nos velhos um fardo.

Hoje é dia dos avós.

Sem medo da palavra! A obediência é uma virtude. Não te diminui, nem é coisa de fracos. É a atitude humilde e sensata de pessoas maduras que vivem, por amor, a sua liberdade.

Deves obedecer à tua consciência, onde Deus fala. Deves obedecer a quem é legítimo instrumento de Deus para guiar a Igreja. Deves obedecer à autoridade humana justa, que reflete a caridade de Deus. Deves obedecer a Deus, porque é Deus! E deves obedecer como Cristo que, até à morte, pagou a nossa desobediência.

Num daqueles desvarios rebeldes, em que te dá para enfrentar toda a autoridade, pensa em Jesus no horto das oliveiras: "não se faça a minha vontade". Nunca ninguém foi tão livre.

Jesus sofre.

A Paixão do Senhor é violenta e crua. Muito diferente das experiências de fé que mais me agradam. Sem sorrisos, sem abraços, sem consolos, sem canções. Tem sangue, dor e lágrimas, que não posso disfarçar.

Não quero fugir desta cena. Deve ficar gravada na minha memória porque aconteceu para mim. Jesus quis redimir-me pelo sofrimento e deixou-se pregar, expiando assim os meus pecados e os teus.

A vida cristã é leve, alegre e boa, mas passa pela cruz. Aceita-a. Não deixes que Jesus a carregue sozinho.

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