Tema: Humildade

Ouviste uma ideia para a tua vida cristã que te pareceu exagerada. Não é que discordes, mas já ninguém vive assim, são coisas de outros tempos, não é o mais importante.

E incomodou-te. Mas procuraste argumentos para defender o contrário e não os encontraste. A não ser a necessidade de compreensão e da intenção recta, que ninguém tinha posto em causa.

Talvez não seja uma ideia exagerada. Talvez seja só algo que não queres dar. Talvez seja o que Deus queria que ouvisses. Talvez faça sentido em quem vive por amor. Talvez seja para ti.

Não desprezes essas luzes.

(Vamos fazer uma pausa. Voltamos na Quaresma.)

Podias conhecer com outra profundidade a vida espiritual, estudar pausadamente aquele tema doutrinal difícil, aprender com a experiência dos santos que tiveram as mesmas lutas que tu, abrir a imaginação ao ler a vida de Jesus.

Mas não lês. Talvez te consigas desenrascar com uns vídeos e umas conversas. Mas vais muito mais lentamente.

Lê, esforça-te, força-o. Vence a preguiça e a frivolidade.

És chamado a muito mais. Se não lês, não sei se algum o dia o vais perceber.

Tens um no trabalho. Conhece-lo bem! Aquele jeito... a ti não te engana. Fazes questão de prevenir todos contra ele. Contas uma história triste, referes os principais defeitos. Tentas contrariar sempre que ele fala, mandas abaixo porque ele fez. Se fez mal mostras a todos, se fez bem desacreditas.

Os que te ouvem já dão o desconto: é uma obsessão tua. Talvez tenha havido alguma coisa ao início, mas agora é só uma mania, um modo de ver viciado, uma ferida que manténs aberta porque te consola. Não vais encontrar apoio, nem razão: não a tens, ele não é o demónio e não tem nada contra ti. Até parece melhor que tu.

Humilha-te, admite que é egoísmo e aprende a ver com olhos novos: os do perdão. E do bom senso.

Que sabes fazer e fazes bem. Tens imenso talento e uma fome insaciável de ajudar os outros, de falar de Deus.

E metes-te, aceitas desafios, lanças projetos, estás em mil coisas boas. Todas são prioritárias, todas dão fruto, todas são exemplo do que se devia estar a fazer.

Medes os números. E não reparas que aquilo a que te comprometeste, antes desse entusiasmo, ficou por fazer. E que aquelas pessoas que contavam contigo estão sozinhas. E que aquele pequeno foco de luz, onde não brilhavas, se apagou.

Pela família, pelos amigos, pela paróquia... por Deus, estás disposto a largar algum desses projetos maravilhosos?

Por muito que nos esforcemos, São José continua a ser uma presença discreta. O pai do Verbo não nos deixou uma palavra. Escolheu escutar, acolher e cumprir a vontade de Deus.

De bom grado o ouviríamos: os seus conselhos, o relato dos momentos únicos passados com os seus (e nossos) maiores amores.

Mas encontramo-lo silencioso, escondido. Deixando Jesus brilhar e Maria refletir a mesma luz.

Bom modelo para os teus sonhos de grandeza.

E como estás agradecido. Que bom é aceitar as limitações e deixar que Deus seja a tua fortaleza. Que simples se torna a luta quando desconfias das tuas forças.

Mas ainda não conheces tudo. Só aquela fragilidade que o Senhor te achou capaz de aceitar agora. Há mais passos para dar nesse caminho de despojamento.

Dói sempre crescer em humildade.

Não tens de controlar tudo, nem podes. É demasiado para ti.

Não tens que explicar tudo, nem sabes. É esgotador querer ser Deus.

Aceita os momentos de dúvida, aceita as imperfeições, aceita a fragilidade que trazes dentro e te recorda que há outra luz. Suave, bela, constante, que aponta a Quem te diz: vem a Mim, se estás cansado. Eu te aliviarei.

Sentes-te assim? Senão, tens de crescer em humildade.

É sempre!

Não foste nada claro, mas ele é que não percebeu. Não atendeste mil vezes, mas ele é que te recusou uma chamada. Não te empenhaste, mas eles muito menos. Não aceitas críticas, mas ele é que tem a mania. Não estudaste, mas eles é que dão imenso trabalho.

Procuras sempre justificações, nunca responsabilidade.

Com um pouco mais de humildade podias, pelo menos, ser realista. Dava para ir corrigindo o que é, obviamente, culpa tua.

Ainda que sejas líder e tenhas talento para isso, vais errar e fazer mal algumas coisas.

Não o escondas, não sejas teimoso, não inventes desculpas. Domina o orgulho, admite o erro e pede perdão.

Sim, perante a equipa e aqueles em quem mandas. Não terás qualquer autoridade se não vês na liderança um serviço.

Também se és pai, mãe, polícia, professor, padre, mestre, capitão... apóstolo!

E em princípio és fraquinho, com asneiras infantis e quedas grandes. Tens pouca resistência à tentação, cedes assim que custa, sofres pouco por Jesus.

Confia mais na Sua força, sabendo que também tu tens de escolher Deus. E essa escolha exige um esforço.

Por isso, deves evitar as situações que são uma tentação para ti, só porque o são. Não é nada de errado, os outros estão tranquilos, toda a gente o faz... mas tu cais. Então, sê prudente e não vás. Não é melhor isso do que trair o Senhor?

Amas Deus? Mostra lá.

Não caia no erro de se citar muitas vezes, fica mal. Fale de si com desprendimento, como se fosse necessário referir aquele feito ou virtude. Dê a entender que haveria mais a dizer de si próprio mas que, por humildade, prefere calar.

Se conhece o assunto ou a pessoa de que se fala, nunca deixe de o dizer. Mas não domine a conversa: basta deixar cair algo que o mostre.

Quando puder, diga o que lhe confere autoridade: que mandou, que esteve muitas vezes... Calar-se-ão para o ouvir.

Não diga tudo, faça-os perguntar. Seja o centro, ouça-se.

E viverá cada vez mais triste.

Ouviste? Lá está ele com as indiretas. Porque é que não me diz na cara? Outra vez esta conversa? Viste como olhou? É para magoar.

É que ele nem sequer se lembrou de ti. Estás obcecado –humilhado talvez–, tudo anda à tua volta e em tudo vês ataques. Que ninguém lançou.

Não te admires que comecem a evitar-te: é preciso medir cada palavra ao falar contigo.

Perdoa, esquece e segue em frente. É o normal!

Tens mais cabeça, mais amigos e mais dinheiro. E não desprezas ninguém, mas na verdade achas-te uns furos acima dos outros: mais limitados, mais estranhos, mais pobres.

Do alto das tuas qualidades, és condescendente e paternalista e finges estender a mão para que se cheguem a ti.

O que é mérito teu?

És um privilegiado. Estás bem tramado se não fores humilde!

Destacas-te como bom cristão, sabes mais, rezas mais, tens outra postura e, aparentemente, mais fé. Não duvido: se corressem todos na mesma pista, ganhavas.

E então?! És o melhor do grupo? Não o sabes, não é o que procuras e não é -não deveria ser- o que te move.

O que te pede Deus? Que dons te deu? Como és generoso? Quanto confias? Quanto te parece suficiente?

O teu amor a Deus pode crescer sempre. Se te orgulhas por amar mais do que outros, já começou a diminuir.

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