Tema: Carácter

É um truque, não é? Não tens muitas ideias sobre o tema, mas queres levar a conversa para um terreno em que te sentes seguro. É melhor picar, tentar atrapalhar, não vá o assunto tornar-se sério e não sabes o que responder. Melhor ainda se for em grupo: ninguém fica bem quando responde corado.

E assim parece que o sexo é o grande tema do cristianismo, a sua obsessão, o grande problema, a pedra no sapato.

Não é.

Não provoques, conversa. Talvez te surpreendas com a ideia católica de sexualidade, talvez percebas que afinal sabes menos do assunto, na teoria e na prática. Talvez descubras um horizonte novo que traz luz sobre o teu namoro, a tua família, as tuas amizades, o teu coração, o teu futuro... Sobre ti próprio.

Foi tão difícil começar, que esperavas mais certezas. Mas às vezes parece que a insegurança aumentou. Não sabes se ele te percebe, não percebes porque não o diz, não sabes se deves insistir.

E estás cansada de ser mãe dele! Como é possível ser tão trapalhão? Será assim tão básico? Será, então, o certo?

E, no entanto, nunca te vimos tão bem. Não conhecíamos o melhor de ti que, nesse esforço, veio ao de cima. Andas serena, focada, simples.

Não te queixes tanto. Para ti é desafiante, para nós é divertido, para ele é novo, para Deus uma alegria.

Querias ser forte e capaz de tudo, como alguns acham que és. Querias, pelo menos, conseguir vencer as misérias que te envergonham. Querias ter outras fraquezas, as que desculpas nos outros, e não essas a que dás luta há tanto tempo.

Mas és frágil, muito frágil. Tentas e falhas, prometes e não cumpres. Enches-te de bons sentimentos com a mesma rapidez que os esqueces. Decides-te a mudar, cheio de fervor, e continuas o mesmo. Dizes a Deus que O amas, mas, tão frágil, já não sabes se é verdade.

Deus sabe. Deixa que sejas assim. Quer-te frágil, necessitado, humilde, para que estendas a mão para a Sua fortaleza. Quer mostrar que te ama, antes de tu Lhe mostrares que és capaz de O amar.

És mais belo assim, nessa frágil incerteza, protegido por mãos delicadas que te moldaram uma vez e te reconstruirão sempre.

Estás sempre a queixar-te. Até tens razão, mas é tão difícil estar contigo...

Nunca és positivo, nunca vês o esforço dos outros. E nunca queres verdadeiramente corrigir aquilo de que te queixas. Ias queixar-te de quê?!

Quando fazes melhor, fazes com má cara. Quando fazes pior, é porque não tens condições. Quando fazes sozinho, os outros são inúteis. Quando te querem ajudar, preferes fazer sozinho.

Repetes mil vezes que não vale a pena... Mas isso é o contrário da luta cristã. Vale a pena, sim. Vale a pena.

As pessoas desiludem. Ninguém é perfeito, alguma coisa hão de falhar. Mesmo aqueles por quem tinhas admiração. Mesmo tu.

Por isso, olha para as falhas dos outros como achas justo que olhem para as tuas. São lutas difíceis para ti, que tentas mudar. E tendo tantas outras virtudes, não esperas ser etiquetado pelos defeitos.

E tens tantos! Sim, às vezes irritas. Às vezes apetece não te voltar a ver. Às vezes é desesperante que não repares. Mas tentamos desculpar a ajudar-te.

Olha para os outros reconhecendo que precisas deles. Não abandones os que erram, não te irrites com os que lutam. Olha-os como te olha Jesus.

O telemóvel fez de ti um bom ator.

Lês mensagens na oração mas parece que lês textos piedosos. Consultas notificações na Missa como quem vê as horas. Estás nas redes enquanto alguém fala mas parece que procuras dados importantes. Vives online durante as aulas mas é só para tirar notas...

Parece que tens muito trabalho, sempre a mil a tratar de coisas. E estavas só nos grupos!

Não aceites a duplicidade. Ninguém nota, todos fazem, ninguém se ofende. Mas tu sabes o que é mentira.

Havia conquistas que não eram para ti, virtudes inalcançáveis, defeitos que nunca pensaste dominar ou vencer. Havia uma chamada à santidade em que não te incluías, uma proximidade com Deus exclusiva de outros.

E ouviste, com surpresa, que também podias, que tinhas o talento e a ajuda, que fazias falta, que contavam contigo.

Fez toda a diferença.

Deus acredita em ti. Alguém acreditou também. Faz o mesmo.

Não é que não o sejas, mas preocupas-te. E invejas os que não se preocupam com o pecado.

Tens inveja do que tem melhor nota porque copia, e do que conquista porque é falso, e do que ganha porque rouba. Sentes-te obrigado a ficar para trás, a não desfrutar tanto.

Mas não estás bem quando estás com Deus? És amigo de Cristo ou é por medo que O segues? Desfrutas quando tens o mesmo que os outros ou quando tens paz na consciência?

Sabes onde está a verdadeira alegria. Mas continuas a enganar-te com as promessas fáceis de felicidade, com o consolo de ficar à frente, de ser admirado. Se vivesses por amor, não desejavas tão pouco.

Usas demasiado esta desculpa. Não sabes, não tens jeito, os outros fazem melhor. Sobretudo para tarefas que não queres fazer, que não dão gosto. Ou que não são próprias da tua condição!

Quem sabe, aprendeu. Também podes aprender.

Não é preciso um curso para mudar uma lâmpada, nem para limpar a travessa que caiu inteirinha no chão, nem para fazer um telefonema.

Talvez nunca aprendas a cantar! Talvez não sejas mestre onde não tens jeitinho nenhum. Mas podes, e deves, fazer muito mais: não te falta talento, falta generosidade.

Que fácil dizer mal dos outros! Não com rancor, mas com sentido de justiça, exigindo.

Podiam ser mais atenciosos, mais delicados, mais comprometidos, mais esforçados. Deviam ser. E vivemos socialmente dececionados.

No meio de tanto lamento, esquecemo-nos de nós, do nosso carácter! Quantas vezes não fomos descuidados, bruscos, levianos, preguiçosos? Nem sabemos. E que falta faz recordar!

Olha para ti, examina a tua vida e pede perdão a Deus por essas faltas de amor. Depois exige-te, tira propósitos. "Sê o que queres que os outros sejam e verás que já o são."

És muito pessimista. Isso é mau e desanima-nos.

Às vezes exasperas. É que não há razão para dizer que vai correr mal, se fizeste com tempo o que devias ter feito. Nem para dizer que há problemas quando ainda não tens sinais deles. Nem que está tudo errado quando estão todos tranquilos.

Vive com o otimismo da fé, como quem faz as coisas para Deus. Trabalha com esforço e responsabilidade e deixa os frutos nas mãos do Senhor. Olha para o que os outros suportam e ajuda-os a ver primeiro o que é bom.

Deus não perde batalhas. Não as perderás se estiveres do Seu lado. Sê realista, contando que Deus vê as coisas melhor do que tu. E não estragues o ambiente por ter medo de falhar.

És muito otimista. Isso é bom e dá-nos ânimo!

Mas às vezes exasperas. É que não há razão para dizer que vai correr bem se não fizeste o que devias ter feito. Nem para dizer que não há problema quando os outros estão cheios deles. Nem que está tudo bem quando estão magoados contigo.

Vive com o otimismo da fé, não com intuições e fezadas. Trabalha com esforço e responsabilidade, não com palpites e sorte. Olha para o que os outros suportam, não para o teu umbigo.

Deus não perde batalhas mas tu perdes. Se não fores realista, acabarás por não dar luta às que podias vencer. E atropelas alguém.

Não te importa ser bom, agir bem, fazer o que está certo. Apenas ser bem visto.

E vais à confissão arrependido do que viram, não do que fizeste. Dói-te mais que vejam as tuas fraquezas do que virar as costas a Deus. Acabas por pecar para ficar bem.

E vives com medo dos homens e de Deus.

Olha para a cruz. Pensa no que Jesus te oferece e como o recusas. Pede-Lhe amor e dor de amor. E agradece o Seu olhar constante, atento e amoroso, sobre ti, tão diferente do teu olhar sobre os outros.

Os transportes, a indisposição, a insónia, o esquecimento...

Depois de tantas vezes já percebemos que o problema não está em nada disto. É a tua falta de interesse, de trabalho e de previsão. Desculpa: no fundo, pensas em ti.

Ninguém to disse, mas parece que mentes. Talvez primeiro a ti próprio. É que achas sempre que alguém, com pena, fará por ti o que tens de fazer.

E ser adulto?!

Bonito tempo de descoberta e crescimento. De conhecer-se e de enfrentar medos. De crescer em liberdade.

Que pena se se consome na construção de um mundo oculto, numa interioridade irreal, numa vida de pecado escondida, dupla, numa relação de medo com os outros.

Tu já não és adolescente nenhum, mas tens a mesma tentação de te refugiares no que controlas, de mascarar os teus defeitos, de estar apenas no que podes assegurar, de viver como não és, longe dos olhares verdadeiros.

Cresce. Sai de ti mesmo ou serás um eterno adolescente. E os que vierem depois porão os olhos em quem?

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