Tema: Apostolado

Tens a força de um apóstolo. A palavra certa, a postura que atrai, o jeito para as pessoas que faz com que te ouçam.

Mas subiu-te à cabeça. Tu é que sabes fazer, faz mal quem faz diferente! Deixaste de ouvir e aceitar outros caminhos.

O talento que tinhas para servir Deus passou de meio a obstáculo. É o que agora usas para juntar os teus discípulos.

Não deixes de ser apóstolo. Mas com o desejo de que não te sigam em nada. Só a Jesus.

O sal realça o sabor, conserva os alimentos, provoca sede.

Tu tens, nesta terra, a missão de anunciar Jesus: tornar a Sua mensagem –não a tua!– atrativa para os outros.

Tens a doce responsabilidade de guardar a presença de Deus neste mundo e de guardar o mundo fazendo Deus presente.

Tens a sorte de poder oferecer a todos o único que sacia a sua infinita sede.

Talvez encontres, nesta tarefa, momentos difíceis de contradição. O sal também cura as feridas.

Estão todos a andar no mesmo sentido, mas a tua consciência insiste que deves ir ao contrário.

Ninguém te diz nada. Só uns encontrões irritados, risos, olhares trocistas. Ao longe alguém berra: agarrem esse idiota, que ainda arrasta alguém com ele!

E insistes, com uma coragem que não é tua, guiado por essa voz interior. Ninguém te apoia, mas uma criança pega na tua mão e pede-te ajuda. Aumenta o peso, as críticas sobem de tom. Tens de a guiar.

Outra se agarra, ferida. E outra, doente. Carregas agora um pequeno grupo que o medo escondia da multidão.

Já se vêem, já contam. E já se ouvem, naquele êxodo, uns murmúrios frustrados: estes sabem para onde vão.

Preso a Cristo e puxando outros, não tens de fazer o que todos fazem.

A pergunta é diferente em cada uma das pessoas que queres aproximar de Deus. Deixa que a façam. Cristo responde um a um: se quiseres ajudar, primeiro, tens de ouvir.

E, assim, não verão no cristianismo apenas algo que te interessa, mas a resposta entusiasmante que há tanto procuravam.

Nem tens de ser, há mil maneiras de mostrar Deus aos outros. Não precisas de arrastar multidões, nem de ser um orador brilhante, nem de fazer espetáculos.

A tua serenidade, o teu exemplo, a tua disponibilidade, também falam de Deus. Um a um, pouco a pouco. Mas sempre com a mesma sede que tem Cristo de alcançar o mundo inteiro.

Aí onde estás. Até pode ser que tenhas tempo para assumir um encargo qualquer, na paróquia ou numa instituição. Mas não é preciso.

Um leigo empenhado é um simples leigo! O batismo já te deu vocação e missão. Tens a teu cargo a responsabilidade de transformar o mundo, amar e fazer amar Deus na família, no trabalho, em todo o lado.

A chamada à santidade não é privilégio de quem tem encargos eclesiais. Vive com sentido de missão e darás nova luz às batalhas de cada dia.

Que sabes fazer e fazes bem. Tens imenso talento e uma fome insaciável de ajudar os outros, de falar de Deus.

E metes-te, aceitas desafios, lanças projetos, estás em mil coisas boas. Todas são prioritárias, todas dão fruto, todas são exemplo do que se devia estar a fazer.

Medes os números. E não reparas que aquilo a que te comprometeste, antes desse entusiasmo, ficou por fazer. E que aquelas pessoas que contavam contigo estão sozinhas. E que aquele pequeno foco de luz, onde não brilhavas, se apagou.

Pela família, pelos amigos, pela paróquia... por Deus, estás disposto a largar algum desses projetos maravilhosos?

Não há mais nenhum no teu ambiente que, além disso, ainda acha ridículas as tuas ideias. Preferias não ter de guardar a fé com tantos riscos de imagem ou tanta sede de confronto. Tens medo.

Mas o teu papel aí não é brilhar, nem vencer. É servir.

Em vez do grupo, pensa nas pessoas uma a uma: este, aquela, o outro... Consegues ter, para cada um, os mesmos sentimentos de Cristo?

O ambiente, o grupo, a multidão, continuarão a assustar-te. Mas a amizade não mete medo. E um bom amigo é um exemplo eloquente da mensagem de Jesus. És?

Agradeço que mo digas. Mas não chega. Ainda não percebeste que não estou a conseguir largar?

Dá-me razões, explica-me como se larga, diz-me a que me devo agarrar. Os argumentos de autoridade já os conheço bem. Não mandes: acompanha-me, anima-me, ajuda-me.

Eu conheço a lei de Deus. Queria conhecer agora o Seu amor. Poderei contar com a tua paciência?

Querias falar de Jesus. Pensaste em algo apelativo, sofisticado e mobilizador.

Mas apareceram poucos: o imigrante que não tem amigos, a rapariga que está deprimida, o rapaz que tem uma deficiência, aquele outro maçador que não encaixa em nenhum ambiente, a mulher impopular de que todos fogem...

Sentiste-te desiludido. Sonhavas uma Igreja só para os outros.

Começa o Advento. Para quem vem Jesus? Em quem O vais acolher?

Jesus é Deus. Não é um sábio, não é um guerreiro, não é um herói, não é um deus. É Deus.

E tu nunca o dizes quando falas Dele.

Talvez te pareça menos chocante apresentar Cristo pelo que Ele disse, pegando em alguma coisa que todos aceitem facilmente. Mas dizer que um homem é Deus é um escândalo.

E, contudo, é por isso que O segues.

Se esqueces o que rezas no credo, a tua explicação da fé não passa de um discurso querido, fofo, inútil.

Às vezes parece que falas de Jesus só para que O tolerem. Ou a ti...

Ele não sabe mas eu não lhe digo nada, ainda se zanga. Podia ser muito mais feliz se se desse conta, mas sei lá se estaria interessado. Até tenho sugestões para os problemas que atravessa, mas prefiro que ele peça.

Sim, somos amigos. Partilho tudo com ele, mas há coisas que são muito pessoais, percebes? Eu acho que ele não iria compreender. E precisava de tempo, neste momento estou sem tempo. E sem cabeça também para grandes explicações. É que eu não tenho muito jeito para falar.

...

Mais um pobre homem a quem ninguém falou de Deus... até parece que para o bem dele!

Não sejas egoísta.

Anda tudo obcecado com Deus! Isso mesmo: obcecado. Veem-nO em toda a parte - no hambúrguer que devoram com avidez, no Rolex que ambicionam comprar, na viagem que planeiam fazer, no cargo que sonham ocupar, na noite, no sexo, no álcool e nas drogas… Por isso dizem que, quando alcançarem essas coisas, serão felizes, plenamente felizes. Até podem não dizê-lo, mas sentem-no. E essa convicção profunda motiva a sua luta.

Tu, porém, queixas-te! Que o mundo é averso aos cristãos… Esqueces-te que o mundo é obra de Deus e o ser humano também. Há um erro de fabrico e a gente almeja a perfeição. Só que a procura no sítio errado…

Ainda não desempacotámos a roupa de inverno e já vemos montras cobertas de neve. O comércio está ansioso com o nascimento de Jesus e não anuncia outra coisa. Ávidos do ouro que traz Belchior, ganham clientes e notoriedade, aumentam vendas e lucros.

Tu, se falasses de Jesus com a mesma paixão e empenho, ganharias muito mais. O negócio da vida eterna é bem mais rentável, para ti e para quem convences a investir! Ouro?! O teu Deus é amor, vida, liberdade.

Fala. Mostra-lhes como necessitam do que ainda não conhecem.

Respondemos quando nos perguntam e agimos com naturalidade ao viver a nossa fé.

Mas faz falta propor Deus, apresentá-lO, convidar, quebrar ideias feitas. Por um receio exagerado de que nos achem extremistas, deixámos de falar de Deus.

Ficamos à espera quando os outros esperam Cristo sem O conhecer; quando Cristo os espera contando com a nossa iniciativa.

Sim, a Igreja tem de chegar a mais pessoas. Não pela Igreja: pelas pessoas!

Podem chamar-te louco, inconveniente, inoportuno... uma pequena parte do que chamaram a Jesus. Fala.

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